Paróquia

Edição: Secretaria Paroquial

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O descimento da cruz



           Recordemos agora o gesto daqueles que deram digna sepultura ao Senhor. Seu sepulcro era novo, onde ninguém ainda havia sido posto (cf. Jo 19,41), como nova é a Sua morte, cumprimento do amor e dom da vida e como virgem é o ventre no qual Ele foi gerado. Com sua descida ao túmulo, Jesus abençoou nossas sepulturas e as transformou em lugar de esperança. A morte não tem a última palavra, porque a Palavra definitiva de Deus é Cristo e Cristo ressuscitado. Hoje, guardaremos silêncio, para amanhã fazermos ecoar nossas vozes, em louvor a Ele que, pela sua Ressurreição, é Senhor de tudo o que há no céu, na terra e debaixo da terra (cf. Fl 2,10s).
                          


1. Retire-se a inscrição da Cruz!
“Pilatos mandou ainda escrever um letreiro e colocá-lo na Cruz; nele estava escrito: ‘Jesus Nazareno, rei dos judeus’” (Jo 19,19). A cruz é o trono daquele que veio montado sobre o jumento (Jo 12,14). O título posto no alto é a epígrafe (Mc 15,26; Mt 27,37; Lc 23,38), o ensinamento e a palavra que revela a verdade. A carne do Crucificado realiza cada palavra de Deus, porque Ele é a própria Palavra que se fez carne (Jo 1,14). O Crucificado é a nova Escritura, a ser lida e meditada, a ser degustada e assimilada: n’Ele se manifesta o amor eterno de Deus. Tudo aquilo que foi escrito cumpre-se ali: cada letra torna-se Espírito e vida. Sobre a Cruz, cumpre-se tudo quanto escreveu o profeta Zacarias: “Então o Senhor será rei sobre todo país; naquele dia, o Senhor será o único, e seu Nome o único” (Zc 14,9). O letreiro foi escrito em hebraico, língua da promessa, para que os religiosos não presumam, mas acolham a salvação; em latim, língua dos dominadores, para que os poderosos se convençam da própria fraqueza; em grego, língua dos sábios do mundo, para que estes reconheçam a própria loucura. Deus reina do lenho da Cruz (São Justino): a Cruz é o Seu triunfo. Quem rejeita a Cruz de Cristo rejeita o próprio Deus. Esta rejeição é precisamente a causa da crucifixão de Jesus, mas é exatamente na Cruz que Ele se doa a quem o rejeita. Toda imagem que se busque de Deus e que não passe pela Cruz de Cristo é um ídolo pagão.

2. Enxugue-se a Sua sagrada face!
No rosto desfigurado do Crucificado, resplandece a perfeição do amor que tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (1Cor 13,6). Por isso, aplicam-se somente a Ele as palavras do Salmo: “És o mais belo dos filhos dos homens, a graça escorre dos teus lábios, porque Deus te abençoa para sempre” (Sl 45,3). No rosto do verdadeiro discípulo de Jesus refulge a Sua Glória, que não é a vanglória do mundo, como nos ensina São Paulo: “E nós todos que, com a face descoberta, refletimos como num espelho a Glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente, pela ação do Senhor, que é Espírito” (2Cor 3,18). Fomos criados para amar a Beleza Suprema, que Se revela na face de Cristo: “Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! ... Estáveis comigo e eu não estava Convosco! Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria, se não existisse em Vós. Porém, chamastes-me, com uma voz tão forte, que rompestes a minha Surdez! ... Saboreei-Vos e, agora, tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e ardi, no desejo da Vossa Paz” (Santo Agostinho).

3. Remova-se de Sua cabeça a coroa de espinhos!
“... os soldados teceram uma coroa de espinhos e a colocaram na cabeça de Jesus” (Jo 19,2). A cora de um rei, com seus raios reluzentes, é símbolo da glória, irradiação divina, como o resplendor do sol. Aquela que os pagãos puseram sobre a cabeça de Jesus, porém, era feita de espinhos. São as penas que os dominadores deste mundo impõem sobre os súditos! A glória deste mundo é estar sobre os outros, colocando-os debaixo dos pés. A Glória do Senhor, ao invés, é servir e lavar os pés dos amigos. Quando compreenderemos que a glória deste mundo é uma grande ilusão? Contemplar o Senhor da Glória coroado de espinhos nos salva da vanglória, que destrói a nossa identidade de filhos e de irmãos. Jesus havia dito: “Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros, mas não procurais a Glória que vem do Deus único?” (Jo 5,44). Esta busca de glória mundana faz-nos colocar a nossa identidade na imagem que os outros têm de nós, fazendo-nos escravos do olho dos outros (Ef 6,6; Cl 3,22). O culto da própria imagem é a pior forma de idolatria e a raiz de todo pecado. Jesus coroado de espinhos denuncia a nossa hipocrisia, para nos fazer mergulhar na realidade mais profunda do que somos.

4. Remova-se o cravo de Sua mão direita!
“A mão direita do senhor fez proezas! A mão direita do Senhor é excelsa! Jamais morrerei, eu vou viver para contar as obras do Senhor” (Sl 117,15ss). “Retiramos a sua mão direita, nos lembrando de que essa é a mão que acaricia. Quantos gestos, quantos toques de carinho e perdão essa mão de Jesus nos recorda?! Nós, sacerdotes, que temos a enorme graça de poder traçar sobre vocês a cruz do perdão, somos a extensão dessa mão, não por mérito nosso, mas pela graça que dela recebemos. As nossas mãos terrenas prolongam a mão de Jesus, talvez no gesto mais bonito que teve nesta vida, que foi o perdão, que Ele quis que a Igreja perpetuasse ao longo dos séculos. A mão de Jesus, que traçou o perdão sobre a cabeça da mulher pecadora, é a mesma que traça agora sobre cada um de nós o seu perdão. Cada um peça perdão a Deus no seu coração para que, ao sair daqui, esteja puro como depois do Batismo. Estaremos perdoados, todas as vezes que voltarmos o nosso olhar para este Jesus, pois o seu olhar não tem limites” (J. B. LIBÂNIO. www.jblibanio.com.br/modules/wfsection/article.php?articleid=543. Acesso em 21/04/2011).

5. Remova-se o cravo de Sua mão esquerda!
“Que não saiba a tua esquerda o que faz a tua direita”, diz o Senhor, no Sermão da Montanha (Mt 6,3). Em Jesus, não há separação entre o que Ele diz e o que Ele faz. Por isso, tudo o que Ele apresenta como caminho para o discípulo só é caminho porque é percorrido seguindo-se as pegadas d’Ele. Nada Ele exige de nós que Ele mesmo não o faça antes. Assim também é o convite que Ele nos faz à gratuidade de uma vida que busca a Glória de Deus, ao invés do reconhecimento e da vanglória dos homens. Para estes, quem não aparece não é lembrado. Contrariando a lógica dos homens, isto é, a sabedoria deste mundo, Jesus, que é Palavra, Pão e Vida, é também o grão de trigo, que cai na terra, desaparece e morre, para produzir sementeiras de vida eterna (cf. Jo 12,24). Nossas obras, mesmo que, “por si” mesmas, sejam boas, só serão boas “para nós” se feitas diante de Deus, por amor e com humildade.

6. Remova-se, finalmente, o cravo de Seus Pés!
Jazem, agora, inertes, os pés daquele que proclamou boas novas sobre os montes e anunciou salvação, dizendo a Sião: “Reina o teu Deus” (Is 52,7). Antes, porém, Jesus teve que suportar sobre Seus pés encravados na Cruz o peso das dores do mundo, de tudo aquilo que puxa o ser humano para baixo e não quer deixá-lo elevar-se ao estado do Homem Perfeito, à medida da estatura de Cristo (Ef 4,13). No evangelho de João, o primeiro gesto de amabilidade que Jesus recebe é justamente a unção de Seus pés, por Maria de Betânia, irmã de Lázaro, seis dias antes de Sua Páscoa; o próprio Jesus viu nisso um prenúncio de Sua sepultura (Jo 12,1.3.7). Na atitude de Maria, acontece a resposta da criatura ao Criador. A criatura chega, finalmente, ao objetivo para a qual foi criada: a pronta resposta ao amor do Criador. Também Jesus lavou os pés dos discípulos e nos mandou fazer uns com os outros a mesma coisa que Ele fez (Jo 13,2-15). Com esse sinal de humildade, Jesus nos ensinou que não devemos amar só com palavras de boca, mas com ações e em verdade (1Jo 3,18). Ensinou também que todo aquele que quiser ser o primeiro deve fazer-se servo dos outros. Hoje, se quisermos realmente remover os cravos que ferem Seus pés, temos que fazê-lo, anunciando a todos o Evangelho da Vida e aliviando as dores dos que sofrem discriminação, solidão, fome, nudez, abandono, tristeza e tantos outros males que tornam as cruzes de muitos irmãos e irmãs ainda mais pesadas.
           


Quem souber, reze comigo:

Alma de Cristo, santificai-me.

Corpo de Cristo, salvai-me.

Sangue de Cristo, inebriai-me.

Água do lado de Cristo, lavai-me.

Paixão de Cristo, confortai-me.

Ó bom Jesus, ouvi-me.

Dentro de Vossas chagas, escondei-me.

Não permitais que me separe de Vós.

Do espírito maligno, defendei-me.

Na hora da minha morte, chamai-me.

E mandai-me ir para Vós, para que Vos louve com os vossos Santos, por todos os séculos dos séculos.

Amém.

Pe. Clodomiro de Sousa e Silva

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